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sábado, 19 de abril de 2008

maria bethânia - invocação



invocação me pega pela nuca como se eu fosse um filhotão
de são bernardo com vira-lata. e me arrepia.

e me joga para o alto com carinho e eu navego na estratosfera
do meu lado mais fera.
de minha esfera selvagem entre árvores e esquecimentos

e lá eu bóio, afundo, flutuo, nado, plano, sonho e danço por dentro de mim.

invocação me arrepia na medula e tira meus ombros e costelas
para viajar como se eu deixasse de ser homem e humano
e fosse dança.

e quando invocação acaba, no último átomo da voz da Beta, eu estou
de novo no solo, com cheiro de chuva, cheirando cada canto do quintal,
mas por dentro dos meus olhos eu tenho todas as estrelas da noite.

sábado, 15 de março de 2008

ney matogrosso - cordas de aço




foi uma grande gentileza do Cartola entreabrir a porta de seu coração para nos deixar
ouvir esse samba que balança de leve as cordas mais certas da nossa alma. trata-se de uma longa e íntima conversa, de um momento de desabafo e ternura entre poeta e violão, que, como que por descuido, chega aos nossos ouvidos como um bercinho que se embala. como um violão que se abraça, numa madrugada solitária.


"e no entanto meu pinho"
diz o cantor para o violão. sem revelar tudo que já havia dito antes para o violão, que chora, retruca, samba e canta. como um cachorro ovelheiro, como um amigo de infância, como um ilustre desconhecido que, do nada, pára e escuta toda a história da nossa vida.


"pode cer eu advinho, aquela mulher até hoje está
nos esperando"
não há mais separação entre o instrumento e o cantor. são um só, um ser de três braços, dois peitos e muitas cordas, seis de aço e outras de sentimento e voz.


um som para ouvir abraçado numa morena, numa viola, numa branquinha ou num poste de luz. ou na voz do Ney, sustentando e tropeçando blocos de certezas e incertezas dentro do meu coração.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

caetano veloso - cajuína

existir é como dançar, dançar é como existir.

a dança dos olhos nos olhos, a dança do vento nas folhas, da chuva no mundo e da língua na sede. a dança dos planetas e das nuvens, a dança do pensamento e da circulação sangüinea. o movimento dos sagüis, o morrer e nascer.

um grande prazer, uma ultra dor. líquidos turvos e cristalinos. aqui, aí, em teresina.



90.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

maria bethânia e gal costa - sonho meu

o encontro de duas águas, do rio Gal e do rio Bethânia. a correnteza grave, as ondas agudas. o sol cobrindo o espelho d’água e os peixes eufóricos no manto líquido. um quilométrico passeio pelas montanhas, entre as pedras, entrando na floresta verde, carregando folhas, índias que se banham nuas, botos, botes, borboletas, onças que estendem suas línguas vermelhas e sugam a sede na voz do encontro dos dois rios.

que se esgueiram, se espreguiçam, se esticam, se curvam, se acotovelam, se abrem e se libertam de ser até entrar no Mar, num sonho meu, que vai buscar quem mora longe, que era lá no início, na altura da cordilheira onde o rio nasceu.

90 :/

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

maria bethânia e caetano veloso - doce mistério da vida (ah! sweet mystery of life)

manual para desparafusar a tessitura do espaço-tempo da mente:

1) coloque os headphones;
2) abra o winamp;
3) equalize no modo "live";
4) ajuste o volume no 76;
5) carregue o doce mistério da vida;
6) play

feche os olhos e dance* ou se deite ou sente

e sinta o corpo viajar do opaco ao transparente, ao arco de íris dos nervos, ao círculo-de-fogo do eu, através do roseiral em flor do coração.

* se tiver fones s/ fio.

90

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

elza soares e nando reis - concórdia

um veleiro rangendo, ondulando, estufando o peito de vento e milhas de sonhos. do rio do rio ao mar do mar embaixo do céu do céu. numa música que se estende (e mais do que sons para escutar, suas notas se transformam em chão para pisar).

ou dançar.


90



Eu atravessei a porta
Fiz o meu jardim, pomar
Crendo em mim Jesus na hóstia
Rio do rio
Céu do céu
Mar do mar
Beijo em paz a sua boca
Dou minha roupa pra você usar
Peço a tua mão aberta
Um vestido branco eu vou lhe dar
Filhos, netos e um planeta
Do futuro, esse muro ainda escuro
Nós ainda temos que derrubar
E erguer a nova praça
Da nossa árvore
Um novo lugar
A vida que ainda vamos viver
Teço em mim essas ruivas telhas
Corro sem te acompanhar
Enche o berço essa fruta, a cesta
Só a luz do dia
que é você faria
A minha noite estelar
Deus que deu flor nessa água
Som às palavras
Chão pr'eu pisar
A vida que ainda vamos viver
Eu e você.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

ney matogrosso - mal necessário

se você não foi na missa domingo passado, se faz horas que não vai no culto, nunca pisou num centrinho espírita, num terreiro de umbanda ou comungou o vegetal das plantas da amazônia. se você nunca mergulhou no rio Ganges, nunca dançou com os hares, nunca meditou entre os flocos de neve do himalaia. se você nunca se abraçou a uma árvore ou seguiu uma abelha pela floresta de flores,

não tem problema.

escuta o ney nessa música litúrgica e vá em paz, meu filho.

90

]85 palavras[



Ney Matogrosso - Mal Necessário
Dm    Dm/C            Dm/B          Bb°    Dm
Sou um homem, sou um bicho, sou uma mulher
Dm/C Dm/B Bb° F
Sou as mesas e as cadeiras desse cabaré
C F C A7
Sou o seu amor profundo, sou o seu lugar no mundo
Dm Dm/C Dm/B Bb° Dm
Sou a febre que lhe queima mas você não deixa
Dm/C Dm/B Bb° F
Sou a sua voz que grita mas você não aceita
C F C A7

O ouvido que lhe escuta quando as vozes se ocultam
Dm Dm/C Dm/B Bb° Dm
Nos bares, nas camas, nos lares, na lama
Dm/C Dm/B Bb° F
Sou o novo, sou o antigo, sou o que não tem tempo
Dm Dm/C Dm/B Bb° Dm
O que sempre esteve vivo, mas nem sempre atento
Dm/C Dm/B Bb° F
O que nunca lhe fez falta, o que lhe atormenta e mata
C F C A7
Sou o certo, sou o errado, sou o que divide
Dm Dm/C Dm/B Bb° Dm
O que não tem duas partes, na verdade existe
Dm/C Dm/B Bb° F
Oferece a outra face, mas não esquece o que lhe fazem
C F C A7

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

fito paez - águas de março

águas de março é uma música que será ouvida para sempre.

por exemplo, em 2881, num cargueiro espacial hindu-brasileiro na monótona travessia de de Marte para Io (uma das 63 luas de Júpiter) a piloto argentina se delicia cantando junto com o dueto inesquecível de tom jobim e elis regina, enquanto corrige o curso para atravessar o cinturão de asteróides, lembrando que é março, ao ver no painel a previsão do tempo para São Paulo,onde mora o seu amor.

e eu, ouvindo, danço entre os pingos pingando.






90!
[87 palavras]


Águas de Março (1972)
Antonio Carlos Jobim


É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira

É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira

É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho

É um estrepe, é um prego, é uma conta, é um conto
É uma ponta, é um ponto, é um pingo pingando
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama

É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

manuscrito da partitura


segunda-feira, 27 de agosto de 2007

secos & molhados - assim assado

quando aparece o guarda belo, canta o BG que vende artesanato na praia, perto do ponto de ônibus. Mochila fechada, cobertor enrolado, violão em punho, são duas horas da madrugada de um dia assim. Ninguém ouve, ou pelo menos presta atenção, na música que ecoa. um velho anda de terno velho assim assim. Até a próxima parada, os versos insistem em voltar à cabeça, ilha em meio aos sons da multidão. porque é preciso ser assim assado.


uns 90.


[79 palavras]

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

paulinho moska - pensando em você

tem uma certa elevação nessa música, um trem a vapor com motor de beatle com coração apaixonado. uma fumaça que se ergue colorida e marca o céu do ouvido como arco-íris.

e se dissipa no ar:: pensamento em sentimento.

e o trem triangula na serra da memória deixando pra trás um vento que sopra entre os acordes, quando o moska voa e canta:

com o perfume das manhãs

com a chuva dos verões

com o desenho das maçãs

com você me sinto bem


e essa viagem acaba nos olhos dela.


90

[90 palavras]

domingo, 19 de agosto de 2007

zelia duncan - me revelar

pra quem tem um segredo no coração e, de repente, o segredo começa a transbordar

vazar pingar correr voar e se grudar, se colar. nas coisas, nas paredes da casa, no espelho embaçado do banheiro.

e o segredo acha a janela e sai. sai pelos dentes, pelo brilho dos olhos, pelo ar do suspiro, pelos dedos que viram música

que revela – e liberta – outros segredos em outros corações.

90

[68 palavras]

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

walter franco - me deixe mudo

muito louco como a partir da desfragmentação sonora, mental, cardíaca, walter franco vai juntando as notas, o ar que expira, retalhos do que sente e sílabas soltas para entregar uma música como quem deixa um recém-nascido na porta da casa de alguém numa noite estrelada.

mas o tempo nubla, o bebê cresce, estica, envelhece e vira pó. um vento bate e a poeira se espalha.

quando amanhacer vai ser possível ver seus farelos pairando no ar que se inspira.


9.........0.........9.........0.........9.........0.........9.........0

[79 palavras]

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

belchior - a palo seco

a palo seco, do primeiro disco de Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes (lançado em 1974), fala para quem tenta achar o seu caminho no mundo:

se você vier me perguntar por onde andei
no tempo em que você sonhava
de olhos abertos lhe direi
amigo, eu me desesperava

belch trata quem ouve como amigo, em uma época em que ter amigos era subversivo e sonhar era perigoso.

Assim, a música entra a palo seco até a tuba auditiva, mas com a sinceridade que só a amizade verdadeira permite.

90

[89 palavras]

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

gilberto gil - drão

gosto quando ele diz que

o verdadeiro amor é vão
estende-se infinito, imenso monolito
nossa arquitetura

o amor como vão (tanto o adjetivo: insignificante, ilusório; como o substantivo: espaço vazio, caminho). em ambos os casos, infinito. uma ponte invisível, ligando, talvez, o que somos ao que desejamos.

é legal sentir o amor como algo transparente e sem fim, que imenso e desconhecido nos arquiteta.

assim, não vê-lo, achar que o perdeu ou que o encontrou são situações menores, porque o amor está. já estava antes e vai continuar depois.

90ão

[89 palavras]

terça-feira, 10 de julho de 2007

chico césar - pensar em você.mp3

"nem quero pensar se é certo querer"

às vezes cantar é o único jeito puro vivo direto e instintivo de ser.
e antecede a ética e a moral. é a forma natural da dança cósmica, da música de tudo que se solta como átomos, como quem abre uma gaiola.

e chico, nome de passarinho, faz o pensamento voar e abraçar a vida. e você ouve essa paixão e sente as penas e o bico da liberdade sacudindo seu coração.

. 0.
9

[79 palavras]

segunda-feira, 25 de junho de 2007

doces bárbaros - peixe.mp3


apenas querer.

tem gente que diz que querer é poder. tem gente que diz que querer é foder. os quatro encaracolados à esquerda só queriam ver o peixe.

só isso.

talvez num reconhecimento da beleza de prata da agilidade de asas das nadadeiras nos agudos da gal, nos gritos submarinos do gil no transe verde dos irmãos veloso, na transa dessa antipescaria musical.

90 porque não pode ser 100.
[ 63 palavras ]

Rôcki

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

maria bethânia - as canções que você fez pra mim.mp3


acho que todo mundo conhece esse som. mas é que sonhei com a bethânia hoje e resolvi falar dela aqui. da força dela. os cabelos florestais, da voz precisa de chuva no sertão.

um beijo de sol pra ti, maria!

Noventa.

Rôcki

40 palavras.